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Um dia faço um blog

Vivo feliz por ter nascido na geração certa.

Sou da geração do pé descalço. Ainda hoje não há sapato alto que prefira a andar descalça. Gosto da sensação de sentir o chão frio da minha cozinha de mármore no verão. Quando era miúda andava muito descalça. Não só em casa, na rua também. A sensação de tirar os sapatos e deixar o pé sentir a solidez do chão é tão reconfortante. A nossa geração sabe o que isso é. A nossa geração não tem medo de sujar os pés.

Temos cicatrizes das quedas que demos. Não me refiro apenas às cicatrizes visíveis. Essas também temos muitas. Eu pessoalmente tenho duas em cada joelho das quedas que dei em criança. E orgulho-me delas. Sei exatamente como as fiz, naquelas maratonas a brincar na rua. E tanto que brinquei! Sou da geração que se permitiu brincar. Brincar de verdade. Não havia medo de cair e esfolar os joelhos. Afinal de contas era apenas mais uma queda. As infindáveis horas a brincar na rua deixaram-me cicatrizes que ficam para toda a vida. Mas são cicatrizes boas. E não falo apenas dos joelhos. Sou da geração que aprendeu a ouvir que não e que chorou baba e ranho por não ter tudo o que pedia. E isso deixou marcas. Mas marcas boas. Faço parte das crianças que aprenderam a dar valor a um brinquedo e brincar com ele até não dar mais. Será que as crianças de hoje sabem o que isso é?

Felizmente não nasci na geração errada. Não fui uma criança mimada e que se fechou entre quatro paredes com todos os seus aparelhos tecnológicos. Para dizer a verdade só muito tarde recebi o meu primeiro telemóvel e hoje agradeço isso aos meus pais. Talvez tenham sido os nãos que ouvi e o tardar em aderir às tecnologias que nos roubam a infância que me fizeram uma criança feliz.

Sou da geração que teve infância. Uma infância à séria. Será que hoje em dia as crianças ainda brincam? Não falo dos jogos que têm instalados no iPhone, nos meus tempos de criança sabia lá o que isso era. Falo de brincar. Brincarem uns com os outros. Brincarem com brinquedos que não tenham teclas nem tão pouco ecrãs tácteis.

Será que ainda se joga à apanhada? E às escondidas? Pergunto-me se as crianças de hoje sabem o que é o jogo da macaca. Talvez saibam. Mas talvez prefiram outro tipo de coisas. Outro tipo de brincadeiras que lhes roubam a infância.

Gostava que algumas crianças tivessem nascido na geração certa. Que tivessem experienciado o quanto é bom andar descalça e correr sem medo de esfolar os joelhos.

Tenho 22 anos, não pode ter passado assim tanto tempo... Como é que tudo mudou em tão pouco tempo?

Bom, talvez possamos voltar atrás. Não acho que voltar atrás signifique necessariamente regredir. Voltar atrás às vezes é bom. Permite-nos recuperar algumas coisas. Não seria bom termos a capacidade de recuperar o bom da infância e dar de presente às criança de hoje? Eu acho que seria óptimo. Adoraria voltar atrás, trazer-lhes toda a felicidade que senti quando era da idade deles e embrulhar para lhes oferecer. Tenho a certeza que mais tarde ficariam gratos de terem nascido na geração certa.

 

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