Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Um dia faço um blog

Loucos os que sentem.

E por isso eles fogem. Tolos. Fogem como se a sua vida dependesse disso. Fogem pelo medo de sentir. Ou talvez não seja medo. Talvez seja outra coisa qualquer que me recuso a querer saber. Talvez seja a ânsia de querer mais. Mais gente, companhia talvez, como eles, pobres de emoções, escravos do fingimento; mais vida, pensam eles. Talvez porque sentir lhes roube tempo. Idiotas.

Vivem inconscientemente aterrorizados com a ideia de sentir e por isso fogem. Na viagem, vão conhecendo mais deles, vazios, coitados, tão vazios que quase acredito que lhes falte a alma. Rasos de emoções e peritos na fuga. 

Penso que no final do dia, quando são apenas eles, eles e os seus pensamentos, julgo que continuam a  fugir. Fogem de pensar. Pensar muito é para parvos. E isso é que eles não são.

A dada altura creio que acabem por se cansar. Da corrida. Ou da companhia. A dada altura talvez se apercebam de quem são. Penso que no final da fuga, acabam por se aperceber que apenas fugiram deles mesmos. Depois, a corrida será para se tentarem encontrar. E depois, provavelmente, tentarão sentir. Mas não conseguem. Não conseguem porque estão desgastados daquilo que tanto se esforçaram para tentar ser.

Não sei o que farão depois. Talvez continuem a correr contra si mesmos, contra o tempo, contra a vontade quase incontrolável de sentir o que quer que seja. E correm, fogem que nem loucos, tentam ganhar mais. Ganham-se uns aos outros. Inocentes e burros. Ganham-se nas viagens que fazem contra eles próprios e com os iguais a eles. 

Na meta talvez se apercebam do que perderam. Sim, certamente que no final o impacto seja suficientemente forte ao ponto de se arrependerem de não terem sido eles, não terem sido de ninguém, no fundo, não terem sido nada.

NÃO DESCULPAMOS OS TRANSTORNOS CAUSADOS PELAS PERTURBAÇÕES NAS LINHAS!!

Desculpem o capks lock do título. Primeiro foi porque tinha que vos chamar atenção. Já não vinha ao  blog há bastante tempo e era a única maneira de vos captar o olhar para aqui. Golpe baixo, eu sei. O segundo motivo é porque estou realmente nervosa e chateada. 

Se tivesse um milhão de euros, juro-vos que era menina para o dar a quem tiver o coração suficientemente doce, a mente completamente aberta e uma pachorra infindável ao ponto de aceitar os 35920121 pedidos de desculpa diários dos senhores do metro de Lisboa pelas milhares de perturbações diárias nas linhas. 

Não, meus grandessíssimos e respeitáveis senhores, eu não desculpo as constantes perturbações em todas as linhas, todos os dias.

Já agora, e por falar nesse flagelo, o que querem dizer com perturbações? Sei lá, já que somos todos tão íntimos - literalmente -, e tendo em conta que diariamente toda e qualquer parte do meu corpo é tocada (e esmagada, digamos), por toda e qualquer pessoa, acho que já temos confiança suficiente para saber, com detalhes, afinal de que se tratam essas perturbações. 

Eu já nem falo de não adorar o facto de ter que viver com o excesso de partilha corporal que todos os dias me vejo obrigada a ter. Lá calha uma cotovelada na mama esquerda, um entalão no pé direito, um quase tocar de bocas, ao ponto de sentirmos quase o hálito de cada um. Vou até fingir que me esqueço de falar do quanto é motivante começar o dia com o sovaco de alguém literalmente a bater-nos no nariz (falo por mim, que altura não abona a meu favor).

Mas há uma coisa que tem que ser falada. As pessoas tornaram-se realmente ainda mais filhas da puta. E a culpa é vossa. A sério.

Um relato rápido e ilustrativo sobre HOJE: Metro atrasado, as usual. Pessoas chateadas, com cara cerrada e de poucos amigos. Poderia jurar que era terça-feira e estava cercada de sportinguistas. O tempo de espera aumenta. As pessoas começam a bufar. O ajuntamento de seres humanos por metro quadrado começa a tornar-se surpreendente. Volta e meia lá se ouve um foda-se esta merda, vou a pé. Entretanto o metro chega e quase que achei que estaria perante bichos se não fossem 9h da manhã e não estivesse eu na Baixa-Chiado. Empurrões, uma asneira aqui e outra acolá. Um salve-se quem puder pelos últimos 2 centímetros da última carruagem que já estava à pinha. As pessoas que queriam sair, coitadas, não tiveram hipótese, tal era a fúria de quem queria entrar. Que importa se eram velhos, crianças ou pessoas com problemas de mobilidade? Ia tudo à frente, literalmente, e foi tudo esmagado, qual sardinha enlatada. 

Perante isto, como continuar a aceitar as vossas desculpas? Talvez ponderássemos se houvesse algum comunicado, algo como: "Desculpem lá isto, minhas bestas quadradas que não sabem viver em sociedade. Como pedido de desculpa, daquele honesto que vem do fundinho do coração, vamos devolver-vos o balúrdio de dinheiro que estão a pagar para usufruir do nosso serviço de merda."

Mas não. Continua tudo na mesma. Nem o serviço melhora, nem o valor do passe mensal desce. Pelo menos satisfaçam-nos esta curiosidade e expliquem-nos, COM DETALHES, o que querem afinal dizer com perturbações na linha. Já merecíamos. 

 

Voltemos à escrita.

É possível que o nosso olhar não se cruze mais.
Talvez esqueças a minha maneira de falar. Talvez esqueças a cor dos meus olhos e até não te recordes mais das músicas que ouvíamos juntos.
Podemos conhecer alguém. Alguém melhor, pensaremos nós, alguém diferente. Certamente que sim.
Podemos seguir o nosso caminho. Cada um o seu.
Poderei até acabar por me esquecer da tua gargalhada espontânea e do teu jeito engraçado de falar quando acordas.E tu, com certeza que poderás não te lembrar mais do meu cheiro nem da minha forma desajeitada de ser.
Talvez, quem sabe, acabe por deixar de ver o quanto são fascinantes os teus defeitos.
Tentaremos, provavelmente, esquecer a voz um do outro e dos sítios em que estivemos juntos.
Tentaremos, caso a vida siga rumos diferentes, apagar as confissões que um dia trocamos. Tentaremos ainda esquecer que um dia julgamos que poderia ser, eventualmente, para sempre.
Podemos esquecer-nos dos passeios fora de horas, e dos beijos dados na hora certa.
Quereremos esquecer-nos das vezes em que a despedida foi dolorosa.
No entanto, e mesmo que a memória nos falhe, ficará a certeza que um dia fomos felizes.
Se todos os detalhes forem esquecidos, ficará a certeza de que a felicidade passou por nós um dia. Mesmo que não nos lembremos como.
Escrevo isto para que não te esqueças. E talvez para que eu nunca me esqueça também. Mas é possível que aconteça.
Depois da nossa vida deixar de ser nossa, eu espero que não apagues a parte mais importante daquilo que vivemos. Espero que, mesmo que esqueças toda a nossa história, recordes o quanto foste feliz. Não precisas de te lembrar de mais nada.
Assim, e apesar de não ter sido para sempre, teremos a certeza que a memória nunca nos falhará para relembrar que um dia foi mesmo bom sentir que a felicidade passou por nós.